terça-feira, 30 de outubro de 2018

Amor tatuado na alma

(Ginho de Souza)

Tem amor que não morre. Alguns desidratam, deixam de existir, caem no completo e total esquecimento. Mas os que não morrem, não morrem; talvez até se modifiquem, transmutem, mas não, não morrem. É com essa credulidade que tento justificar um dos meus muitos amores que não morreram. Não sei exatamente como começou, dado ao considerável hiato temporal, ou atemporal, como quiser, entre o encontro, a separação e o fugaz reencontro. Mas sei que nunca deixou de coexistir paralelamente aos tantos outros que se sucederam.

Nós ainda éramos dois adolescentes descobrindo o mundo e tentando dar conta das provas que a puberdade nos impunha, com seus segredos místicos. Para nós, o caminho mais audaz por onde nos atrevíamos caminhar era um beijo caloroso e uns amassos, sentados no banco da praça olhando pro chafariz que nos presenteava com um colorido de arco-íris pelas gotículas de água borrifada, atravessadas pelas luzes artificiais. Nos cerca de seis meses que mantivemos válido o “quer namorar comigo?”, essa foi a mais ousada peripécia que nos permitimos. Mas isso não queria dizer que, por não termos ultrapassado a linha proibida da libido, nos faltasse algo para manter os batimentos cardíacos na casa dos 200 bpm, quando nos encontrávamos.

Bastaram seis meses – ou um pouco mais, ou um pouco menos, não sei – para esse amor se incrustar como tatuagem em nossas almas. Também não cabe aqui desfiar como se deu o rompimento, porque a importância da pureza exalada por aqueles dois seres, quando estavam juntos, se sobrepôs desde sempre a qualquer limite de tempo preestabelecido.

A roda gigante da vida rodou, rodou. Amores giraram junto com ela. Alguns deram várias voltas e permaneceram plácidos como se ali fosse seu porto de ancoragem; outros permaneceram o suficiente para perceber que não valia a pena dar mais que uma volta; houve também aqueles que queriam se jogar de lá de cima, na impaciência de completar os 360 graus. A maioria teve começo, meio e fim, como um texto didático que se propõe a contemplar o leitor com uma narrativa coerente e coesa. Mas aquele amor não. Ele ficou. Sem pé, nem cabeça, sem começo, sem meio e sem fim. Mas ficou. Mesmo depois que o parquinho da adolescência partiu levando consigo a sua roda gigante e deixando em seu lugar, um chão firme para se pisar (premissa da vida adulta), acho que nós nunca nos esquecemos um do outro.

E aqui começa onde quero chegar: depois de muitos anos, as obrigações do trabalho nos puseram frente a frente e o sentimento de revê-la pode ser comparado a um sonrisal que, enquanto está quieto dentro do envelope, se mantém fiel às características de comprimido, mas quando lançado num copo d’água, se desmancha todo até diluir por completo.

Foi esse o sentimento que tive ao me deparar com a menina dos seios mais lindos do universo, que uma vez – e tão somente uma vez –, tive a oportunidade contemplar, com o olhar enviesado, quando ela descuidadamente se inclinou em minha direção deixando à mostra através da blusa decotada, os bicos rosados da mulher que despontava dentro daquele corpo, ainda franzino, mas em transição.

Os cumprimentos de praxe de quem não se vê há muito tempo foram protocolares, mas alguma força do universo nos congelou num olhar silencioso e terno. O abraço que se sucedeu também tinha uma liga de antimônio, fundido ao calor dos nossos corpos e que se moldou à forma onde fora depositado. Eu senti a sensação de ter encontrado o encaixe perfeito para o último pedacinho de um quebra-cabeça de 10 mil peças. Foi recíproco, não tenho dúvidas. Disfarçamos, porque o silêncio nos pôs incomodados com a falta de diálogo e a gigantesca interrogação que se precipitou nas nossas cabeças. Afinal de contas, o que era aquilo? Que sentimento louco era aquele que se apoderou de duas pessoas que não se viam há décadas, mas que se seguraram dentro de um abraço? Diria Nietzsche: como dois navios que ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol. Parecendo haver chegado ao seu destino e ter tido um só destino.

Mas se a intenção do malvado destino era brincar de esconde-esconde, a minha, a partir daquele momento, era me tornar parte do mundo da mulher que desgrenhou minha fita de DNA e amalucou meu superego. Eu precisava vê-la novamente, mas longe, bem longe de lugares profissionais. Um vinho em outro dia, quem sabe? Ela aceitou.

A primeira garrafa hidratou a conversa, que se manteve comportada na esfera da vida enfadonha e regrada de quem estuda e trabalha para sobreviver. Em meados do segundo Cabernet Sauvignon, o papo já fluía com mais deitadas de cabeça no meu ombro, deixando exalar o perfume amadeirado, todas as vezes que se ria de alguma palhaçada minha. A essa altura meus neurônios não definiam mais o que era real e confesso que daquele sonho, eu jamais queria despertar.

O táxi nos levou ao hotel onde entramos de mãos dadas enquanto eu me sentia como se segurasse as mãos de uma semideusa do Olimpo. O silêncio era tanto, que destacava dois corações disputando quem fazia as vezes de surdo e contra-surdo na nossa escola de samba particular.


O deus do silêncio determinou a toada daquela noite e nós permanecemos assim por um longo período, nos entreolhando, como se buscássemos misturar nossas almas, pelos olhos um do outro. Sim. Nossas almas, nossos corpos se misturaram. Adormecemos assim: respirando um, a respiração do outro. No dia seguinte ficou somente a promessa de nos rever, quem sabe, em outra órbita estelar.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Mais uma de amor


2° texto da série
"Meus amores"

Amar não é fácil. Não é tarefa para amadores. Amadores que se aventuram nesse caminho, sem preparo para administrar o percurso, sem perceber que estão dentro de um redemoinho, invariavelmente se machucam e, dependendo da queda, herdam sequelas, às vezes, irreversíveis.


Então qual é o segredo para não se machucar? Não amar? Não. Para esta pergunta, eu acredito que não haja resposta, nem fórmula mágica, porque ninguém escolhe amar ou deixar de amar.
Penso eu, que amar é uma questão de treino, de adaptação ao sentimento; à entrega.

Para criar intimidade com o amor, tem de se deixar levar por ele; tem de amar por completo, sem metades. Tem que treinar.
É uma analogia entre um banho de chuveiro e um mergulho de cabeça no ribeirão: molha-se de ambas as formas, porém, com intensidades diferentes.

Em uma só frase, o sábio Vinícius de Moraes talvez tenha receitado o remédio que pode ser a chave para destrancar as portas do amor: "que seja eterno, enquanto dure". Siiiimmm... Enquanto durar, tem de ser forte, sincero e eterno. E se acabar, tem de acabar no final, afinal de contas, como diria Chacrinha, "o jogo só acaba, quando termina".

Roberto Carlos cantou lindamente "você foi o maior dos meus casos, de todos os abraços, o que eu nunca esqueci". Uma canção que, apesar de bela, mostra que o protagonista se esqueceu de tentar esquecer e, ao invés de viver aquele amor, enquanto durou e guardar na mente e no coração os bons momentos, preferiu sofrer sozinho a vacância deixada pela sua amada. Vacâncias podem ser apenas hiatos. Mas isso, só o tempo é quem diz.


Músicas que falam de amor têm intrínsecas em si, o sentimento mais nobre que um ser humano pode ter, até porque, acho que só os seres humanos têm o dom de se apaixonar.

Dentro da minha admitida ignorância, até acredito que outros animais são capazes de demonstrar amor e eu não saberia dar outro nome àquela alegria que meu cachorro demonstra quando eu chego em casa. Sim. É amor.

Mas não é esse amor ao qual me refiro. Falo de paixão, de querer estar a qualquer custo ao lado de uma pessoa e tão somente daquela pessoa. Falo do amor que deixa a gente bobo. De amor de pele, de respirar a mesma respiração, de olhar juntos na mesma direção. O amor das escrituras sagradas, que "tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta". E este amor, só os seres humanos são capazes de sentir.

Portanto, somente quando se entra e permanece confortável em um amor, pode-se dizer que está preparado para amar. Senão, o negócio é treinar mais.


terça-feira, 15 de agosto de 2017

Meu primeiro amor








Primeiro texto da série "Meus amores"
Eu tive alguns amores. Falando assim parece que foram amores fugazes, sem ou com pouca importância. Mas não. Foram todos contundentes, pontiagudos, marcantes e quase todos, mal cicatrizados.


A maioria chegou com os dois pés no meu peito, como coice de cavalo bravo. Indomável. E, de repente, eu me via assim, dominado, sem conseguir me esgueirar do arrebate. Mas era bom. Foram bons.

Meu primeiro amor, de verdade, era a menina mais doce do mundo. Ela surgiu do meio de outras tantas que dançavam na matinê do clube da cidade, com passos iguais, com uma coreografia sem destaque para ninguém, mas que, ainda assim, a destacou para esse músculo que bate dentro do meu peito. E de repente, ali estava ela: alva, cabelos de petróleo, olhos de camponesa e o sorriso mais meigo e puro que um ser pode sorrir.

Até hoje eu busco palavras que definam aquilo que se apoderou do meu juízo e desgadelhou o que, até então, eu tinha de tino.

Ela era linda. E pra cabá, vez ou outra, também olhava em minha direção. Mas cada vez que nossos olhares se coincidiam na trajetória, minha vontade era de pedir desculpas ao mundo, por ter nascido tão inferior àquele ser e, principalmente, pela ousadia de mirar meu súdito olhar àquela criatura divina, feito unicórnio do bosque encantado.

As peças que a vida nos prega, as vezes suplantam os parâmetros da credulidade e, de repente, ali estava ela, brilhante como uma fada que voa deixando um rastro de luz por onde passa e exalando o perfume das deusas de outras dimensões.

Sim, ali estava ela, ao meu lado. Eu, petrificado como se um frasco de cola tenaz tivesse secado sobre o meu franzino corpo, me impedindo de, sequer, olhar para o lado. No caso, o lado dela.

Mas aquele anjo que espalhava pó de pirlimpimpim cansou de esperar por uma reação minha e - percebendo que eu era presa fácil, animal acuado pelo predador - segurou minha mão, sem o menor pudor e perguntou meu nome.

_Jorge. Eu disse incrédulo, ainda atordoado com o êxtase provocado pela suavidade da voz melodiosa da púbere menina.

Aquela atitude a agigantou para os meus sentimentos, mas, ao mesmo tempo, dissipou a cortina de fumaça que há alguns minutos se apresentava como uma intransponível muralha de pedras, guarnecida por soldados romanos.
Não era.
Eu é que era mole mesmo.

Ainda hoje sinto o gosto de chiclete ping-pong do nosso primeiro beijo. E era o céu encontrá-lá, agora, minha namorada e passar com ela, me exibindo para o meu mundinho.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

O legado de Paulo Braga



Um homem que inovou o modelo de cultura regional, nas prefeituras de Franco da Rocha e Francisco Morato

Eu o conheci em meados da década de 1990, quando ele respondia pela diretoria artística da Rádio Estação FM de Franco da Rocha, na grande São Paulo (ne875.com.br). Eu havia sido contratado pela emissora para comandar as noites de sábado, quando fomos apresentados. Ali ele também apresentava um programa noturno que promovia uma espécie de gincana interescolar e os alunos iam defender seus colégios em um quem-sabe-sabe. O negócio era tão contagiante que acabava envolvendo a maioria dos profissionais da rádio, quando ocorriam as finais da tal gincana, dessa vez em um ginásio de esportes da cidade e seu poder de comunicação ficava evidente cada vez que abria o microfone.

Voltamos a nos encontrar durante a reunião de um grupo de comunicadores, no Centro Cultural da mesma cidade. Ele, assim como eu, havia saído da rádio e agora exercia o cargo de secretário de cultura da cidade, trabalho que lhe rendeu ainda mais notoriedade na região, pois sempre foi um homem pluralista e inquieto com o que tinha sob sua tutela. Na verdade, em se tratando de cultura, ele não conseguia se manter apenas em seu quadrado e sempre envolvia pessoas e grupos de outros municípios nos projetos que desenvolvia.

Alguns anos depois, nos reencontramos na cidade vizinha e ele, mais uma vez, comandava a pasta da cultura de Francisco Morato. Para mim, que procuro acompanhar a cena cultural de lá, posso afirmar que a sua presença naquele lugar foi um divisor de águas. Se a cidade sempre seguiu um modelo engessado de cultura, a partir sua chegada houve uma considerável mudança, promovida pelo cara que nunca se deixou levar pela mesmice e sempre mostrou que pensar “fora da caixa” é o melhor caminho para quem quer inovar.

Na época eu ensaiava a produção de um jornal virtual e até chagamos a divergir em uma publicação, o que em nada alterou o respeito que sempre tivemos um pelo outro.

Ele atuou como palestrante, escritor, organizador de eventos, etc, etc e tal. Religioso, sua obra sempre esteve voltada à paz de espírito e o bem ao próximo.

Na última eleição para prefeitos e vereadores, se candidatou a uma cadeira no legislativo da cidade de São Paulo e me convidou para participar de sua nova empreitada e, mais uma vez, o trabalho me colocou ali, para mais essa tarefa. Porém, o destino não permitiu que ele fosse eleito. 

No dia 29 de julho deste ano, esse mesmo destino também não quis mais que ele continuasse a palestrar, escrever, trabalhar... viver.

Paulo Braga. Um homem que, por onde passou, deixou seu legado de respeito, trabalho e transformação.

Diz uma frase atribuída a Adeildo Paraíso, que em 1989 era presidente do sindicato dos estivadores do Porto de Recife: ”O homem é eterno, quando seu trabalho permanece".

Paulo Braga. Você é eterno. 



terça-feira, 27 de junho de 2017

O trem nosso de cada dia

O descaso do governo e a paciência do passageiro da linha 7- Rubi da CPTM


Ginho de Souza
Um dia desses deixei o carro em casa. E o dia pouco importa, porque o que escrevo a seguir, não está restrito a um dia e, infelizmente, também não é exceção.  O fato é que deixei o carro em casa. Não sei se por amor à natureza que, sei, não tem mais salvação ou simplesmente para economizar uns trocados de combustível que não fazem a mínima diferença no orçamento do mês, pois o que economizo acabo gastando tudo de novo em outros trajetos. Deixei o carro em casa e andei até a estação de trens desviando dos cocôs de cachorros – e são vários – distribuídos pelo caminho do bairro onde moro. Não quero aqui entrar na seara dos vendedores ambulantes, que invadiram os trens igual a gafanhotos na lavoura, porque – apesar de respeitar o fato de que poderiam estar matando, roubando e coisa e tal, estão trabalhando – não concordo com a ocupação ao bel prazer de todos os espaços onde caiba um carrinho de picolé e, ou qualquer outro suporte para vender toda sorte de produtos: chocolate, cachaça, banana, DVD pirata, cigarros, bilhetes de embarque (sim, bilhetes de embarque, vendidos em uma espécie de câmbio paralelo ao revés e negociados a preço mais baixo que o oficial na bilheteria... e não me pergunte como conseguem essa proeza). Mas neste dia fui trabalhar de trem. Não é simplesmente um trem: são os trens da linha 7- Rubi, da Companhia de Trens Metropolitanos de São Paulo, a CPTM, e só quem já teve ou tem o desprazer de entrar em um deles, conhece as agruras de sacolejar em um transporte meia-boca em quase todos os sentidos. Para se ter uma ideia, nesse trecho ainda circulam composições fabricadas em 1956, portanto, 61 anos. Entrei na estação de Francisco Morato, município distante uns 50 quilômetros da capital e que, não sei porque, é um terminal – que não é terminal – porque depois de Francisco Morato ainda tem mais quatro estações e aí sim vem o verdadeiro terminal Jundiái. Caminhei por entre ferragens de uma construção que se arrasta há vários anos – uns seis ou sete, não sei ao certo – e para acessar a plataforma cortei caminho passando por um corredorzinho improvisado, literalmente pisando na linha férrea ou, como dizem: passagem em nível. É por ali que todos os passageiros transitam, se não quiserem atravessar por uma escada feita de andaimes de construção, uma gambiarra improvisada há anos e que, ao que parece, deve permanecer ali por mais algum bom tempo (bom, no sentido figurado, claro). Nos autofalantes da estação, a todo momento são veiculadas mensagens de orientação aos usuários, do tipo “não ande mexendo no celular, para não causar acidentes e não atrapalhar a circulação dos demais passageiros”; “não corra, a pressa pode causar acidentes” e uma completamente dispensável: “nas escadas rolantes, segure as crianças pelas mãos”. Esta mensagem seria de grande utilidade, se no local houvesse alguma escada rolante. Não tem. Escada ali, só mesmo a tal feita de andaimes de construção. A gambiarra. É impressionante como a estação enche de gente em tão pouco tempo e para agravar a situação, os trens demoram para chegar e para sair, principalmente fora dos chamados horários de pico. O relógio beirava as 10h e eu ali esperando o dito-cujo dar as caras, quando depois de uns 15... 20 minutos, lá vem ele, com sua testa de ferro pintada de vermelho. As pessoas se precipitaram em se posicionar nos lugares estratégicos das possíveis paradas das portas, a fim de garantirem um lugar sentadas. Quando o trem finalmente parou, como sempre ninguém que ia entrar esperou quem ia sair, sair. Aí fica aquela coisa: todo mundo sinucado na porta. Mais 15 longos minutos de espera, uns olhando para a cara dos outros e principalmente para seus respectivos telefones celulares – não vou falar dos vendedores ambulantes que gritam a todos pulmões. Os autofalantes dão um tempo naqueles alertas gravados e entra em cena o locutor, ao vivo. “Por questões operacionais, esta composição não prestará serviços”. Siiimmmm... aquele trem nããããããõooo ia a lugar algum, pelo menos com passageiros dentro. Saímos todos para, novamente, esperar pelo próximo que, apesar de dar as caras rapidinho, ou menos demorado que o primeiro, foi se arrastando como uma lesma manca até a estação Luz, não sem o anda-anda, grita-grita, vende-vende dos ambulantes... ah... isso eu já disse que não ia dizer. Esse cenário de desordem e salve-se quem puder pode soar como novidade, mas não é e já vem se arrastando há décadas, diuturnamente e as justificativas, pelo menos as do serviço de autofalantes são sempre as mesmas: obras de manutenção. Com tudo isso fica a dúvida: como é que o governo quer que deixemos o carro em casa, quando o transporte público que deveria oferecer, senão conforto, um mínimo de respeito a quem paga e dele precisa? Em uma publicação na internet com dados operacionais de 2010, a própria companhia diz que sua missão é “ofertar serviços de transporte de passageiros com padrões de excelência que atendam às necessidades e expectativas dos usuários e da sociedade”. Já se passaram sete longos anos e a luz no fim do túnel não está se mostrando ao dobrar nenhuma das curvas do longo trecho da famigerada linha 7-Rubi. Em matéria publicada no site do Jornal Estadão de 10 janeiro de 2017, o governo do Estado de São Paulo lutava na justiça para suspender uma liminar que proibia o reajuste nas passagens do transporte metropolitano, que compreende metrô, trens da CPTM e ônibus da EMTU. Na época, segundo o jornal, o governo projetava arrecadação de R$ 220 milhões neste ano, com a justificava do “grave prejuízo aos cofres do Estado em caso de suspensão definitiva dos aumentos nas tarifas de trem, metrô e ônibus intermunicipais”. Posso até admitir que o dinheiro não seja suficiente. Não sei. Mas como usuário do sistema de transporte público, posso assegurar é que a coisa não está boa e merece especial e urgente atenção. Por enquanto, eu sou mais um contribuinte dos congestionamentos que engessam a marginal do rio tietê, todos os dias.


sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mecânicos e mexânicos

A triste história do carro que passou a andar de lado, tipo caranguejo

O que mais gosto nesse meu blog, é justamente a minha presença sazonal. Não que não tenha acontecido coisas interessantes pra postar; muito pelo contrário. Minha vida é um mar de ocorrências, umas legais, outras, nem tanto, porém o que me falta mesmo é tempo e – na maioria dos casos – preguiça mesmo de pôr no “papel”, as inúmeras coisas que me ocorrem ou que apenas observo acontecer com os outros. Mas, como diria Roberto Carlos em seu eterno calhambeque "Essa é umas das muitas histórias que acontecem comigo”.
O assunto também envolve carro, só que não um calhambeque. O protagonista da vez é o meu carro popular mesmo.
Como o bichinho já está comigo há alguns anos, ele sempre reclama de alguma peça desgastada ou que está fazendo um barulhinho nesta ou naquela articulação. Reclamação atendida, saímos do mecânico com a manutenção em dia e entramos na primeira porta que dizia: alinhamento e balanceamento. Eu tinha uns compromissos que poderiam ser resolvidos no interstício do tempo em que meu camarada era submetido à calibragem ortopédica. Larguei ele lá, aos cuidados dos caras que se apresentaram como profissionais, e fui cuidar da vida.
Voltei, entrei, liguei, andei, me irritei.
Por que?
Um pneu andava em linha reta e o outro insistia em virar à esquerda. Ou seja, o carro saiu pior do que entrou. Mas já estávamos longe demais para retornar no mesmo dia. No seguinte, lá fomos nós tentar consertar o conserto. Só que os picaretas tentaram me convencer de que haviam feito um bom trabalho e que... e que.... ah, sei lá quais argumentos usaram para me persuadir a ir embora ou então, pagar uma nova quantia para que eles refizessem o que já havia sido feito, quer dizer, mal feito.
OK. Depois de alguns pareceres de ambas as partes, se convenceram de que não iriam me convencer e, vencidos, subiram meu carro naquele elevador de novo. Mexe de cá, aperta parafuso de lá. Ficou pronto. Fui embora sujando as mãos no volante, com a graxa deixada pelo porco e entrei na próxima porta com placa que dizia: alinhamento e balanceamento.
Confesso que não me surpreendi quando tive de pagar pra fazer, desta vez direito, o serviço que já havia teoricamente sido feito na oficina anterior.
Entre voltar lá, pedir meu dinheiro de volta e ter de parlamentar tudo de novo com aquela legião de picaretas, preferi ouvir a voz de um amigo: esqueça isso e bola pra frente.

Resumo da ópera: o molho ficou mais caro que o peixe. 

sexta-feira, 7 de março de 2014

Camelos, esquimós, bactérias e laranjas

Um relato sobre a falta de preparo com que os alunos saem do ensino regular para os cursos técnicos

Ginho de Souza

O professor usava camelos e ursos polares para exemplificar a tolerância de determinadas espécies a temperaturas extremas. A ideia era começar com seres, digamos, maiorzinhos, até chegar às bactérias que não podem ser vistas a olho nu. No frigir dos ovos, os mamíferos figurariam em uma analogia para determinar os cuidados que se deve ter com doenças causadas por microrganismos.

A aula era de microbiologia e o professor se empenhava em sair da explicação “arroz com feijão”, para que seus alunos traçarem uma linha de raciocínio baseada em elementos visíveis e, mais à frente, quando chegassem aos microscópicos, entendessem com mais facilidade. Porém, sequer chegou a completar o primeiro raciocínio e foi interrompido por um rapaz. _Professor. Disse ele. Se estamos fazendo um curso de enfermagem para cuidarmos de pessoas, por que o senhor está falando de camelos e ursos polares? Ou isso aqui é um curso de veterinária e eu não estou sabendo? 

A sala gargalhou.

O professor coçou a cabeça, observou os ventiladores que não davam conta de dissipar o calor do amontoado de gente debaixo da luz fluorescente... respirou... suspirou e emendou: _Oquei. Então vou mudar a metodologia do exemplo. E prosseguiu. Dessa vez figuraram esquimós e beduínos, em substituição a ursos polares e camelos. _Os esquimós, disse todo paciente, suportam baixas temperaturas e os beduínos, altas. Se trocarmos um para o habitat do outro, certamente terão sérias complicações de adaptação.

Diante do silêncio acompanhado da perplexidade – agora não somente do aluno que questionou, mas da cara de “ué” – de toda a sala, o professor prosseguiu, como que numa tentativa de elucidar a interrogação coletiva e chegar logo nos finalmentes da prosa: _Com as bactérias acontece a mesma coisa, por exemplo, se colocarmos um alimento congelado fora do freezer, ele certamente estragará com maior rapidez, pois os microrganismos que não são resistentes ao frio, em temperatura ambiente atuarão no alimento tornando-o impróprio ao consumo em menor espaço de tempo.

_ Continuo não entendendo, professor. Levantou a mão o mesmo aluno. O senhor só me confundiu com camelo, esquimó, urso, bactéria e, como é mesmo? Jesuíno? 

A sala gargalhou novamente.

Elegantemente, o professor pigarreou, fez que não entendeu o gracejo e perguntou ao aluno. _O senhor conhece a parábola do professor que ensinava matemática, usando maçãs como exemplo?

_Não. Respondeu.

_Então vou contar a história. Prosseguiu o professor. _Certa vez um dedicado professor ensinava a operação de adição a seus alunos. Ele perguntou para a sala: se tenho três maçãs e ganho mais duas, com quantas fico? E o Joãozinho retrucou: professor, por favor, o senhor teria como trocar as maçãs por laranjas? É que com maçãs não consigo entender.

Entenderam a analogia? Perguntou o professor.

A sala se manteve em silêncio.

Foi ali que ele percebeu que a sala de aula – com alunos sendo preparados para atuarem em hospitais, postos de saúde e outros locais onde se deve ter um auxiliar de enfermagem – sequer sabia o significado da palavra analogia.

No final da aula o professor pediu demissão.


E viva o construtivismo selvagem.

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Por que chamamos a hora do almoço de “hora da boia”?

Ginho de Souza

Você já notou que no dia a dia, nós nos valemos de expressões que julgamos corriqueiras e de fácil entendimento para definir uma ideia, porém sem sequer nos preocuparmos em saber de onde e como surgiu tal frase ou palavra? No universo prisional então, isso acaba sendo uma constante, principalmente para os agentes de segurança penitenciária que, por força da função, lidam diretamente com os presos. Eles [agentes] têm de decifrar um dialeto paralelo à sociedade que é usado pelos internos, com uso demasiado de gírias.  

A história conta que no Brasil de décadas passadas – mais precisamente na então Penitenciária de São Paulo (que era de população masculina, atual Feminina de Sant'Ana), diante da rigidez imposta no cárcere, onde os presos eram proibidos até de conversarem entre si, eles desenvolviam várias outras formas de comunicação, algumas não verbal, como o “abano”, por exemplo.

Alguns chegavam até a “namorar” vários anos com presas da penitenciária feminina, que fica pelo menos a 200 metros de distância uma da outra, sem nunca tê-las visto ou tocado. A técnica consistia em trocar as letras do alfabeto em números de vezes que se abanava um pano. O detalhe é que ninguém podia “abanar” com o abano do outro ou, trocando em miúdos, ninguém podia “falar” com a namorada do outro.

No livro Código de Cela - o Mistério das Prisões, o pedagogo e profundo conhecedor do sistema prisional paulista, Guilherme Silveira Rodrigues, além de contar histórias antológicas que viveu ao longo do tempo em que trabalhou (e ainda trabalha) em penitenciárias de São Paulo, também define alguns termos e palavras criadas no cárcere e que muitas vezes saíram dos parâmetros da prisão para serem usadas à revelia em nosso cotidiano. O glossário, se é que podemos assim definir, traduz expressões como: pão (esse pãozinho francês que compramos na padaria) era chamado de marroco na prisão; o vaso sanitário, por exemplo, ainda é conhecido como “boi”, um simples recado anotado em papel chama-se “pipa”... e por aí vai: café é moka (em referência à famosa marca do produto), viatura é bonde, etc.

Dentre tantas esquisitices, o que chama a atenção é a palavra “boia”.  Mesmo quem não está preso sabe que a hora da boia é a hora do almoço. Mas por que boia? De onde e como surgiu esse termo para denominar alimento ou hora de se alimentar? Em uma pesquisa rápida, consegui algumas explicações que, se não eliminam a dúvida por completo, ao menos dão algumas pistas para que formemos uma opinião.

O dicionário Michaelis é pragmático ao descrever boia como “Corpo flutuante destinado a marcar o lugar de qualquer coisa submersa, como, por exemplo, uma âncora, ou destinado a indicar perigo, ou passo difícil; Pedaço de cortiça, nas redes de pesca, para que não afundem; Qualquer comida”.

O wiktionary diz que “A origem do termo vem da comida servida nos quartéis, prisões ou campanhas militares – há relatos de que foi servida na Campanha de Canudos – e que continha feijões mal cozidos ou podres e que por isso ficavam boiando no prato ou cumbuca. Então ‘boia’, quando utilizada no sentido de comida, tem sua origem na imagem de um prato de comida com feijões boiando”.

Outra análise curiosa vem do site de etimologia Origem da Palavra: “Boia viria do Latim BOIA, ‘tala de couro’, de BOVIS, ‘boi’, usada para designar todo gênero de amarras e laços. Passou a designar também a bola de ferro ou madeira usada para dificultar o deslocamento dos presos nas galés¹. Havia gente tão infeliz que se oferecia para esse trabalho horrível apenas em troca de comida e abrigo; eram chamados de ‘banaboias’. Esta palavra passou a significar “tolo, estulto, abobado”, pois representava uma pessoa que achava boa aquela comida. Daí a ideia de boia como comida, alimentação”.

Porém, a explicação mais interessante e que se encaixa perfeitamente no contexto penitenciário fala de uma presiganga² e está no livro História das prisões no Brasil: “A nau³ Príncipe Real, inutilizada para o serviço de combate e desarmada, passou a ser usada como prisão, depois de transportar de passagem a Rainha Dona Maria I e o príncipe regente Dom João, por ocasião da transferência da Corte portuguesa para a colônia da América em 1807”.

O texto explica que nas primeiras décadas do século XIX, a Santa Casa de Misericórdia fornecia assistência alimentar aos presos e os alimentos eram transportados do continente para a embarcação, em caldeirões sobre boias.
Fica a sugestão para pesquisar ou simplesmente refletir
GS é jornalista

¹Tipo de embarcação movida a remo onde pessoas eram condenadas a trabalhos forçados, muito usada a partir do século VI
²Navio usado como prisão, ou que recolhe prisioneiros
³ Grande embarcação de guerra ou mercante
Fontes:
Livro: História das prisões no Brasil
Autor    Clarissa Nunes Maia

Editora Rocco, 2009

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Em outras palavras




Em momentos é intensidade, alta tensão, calor de fundição, aço derretido
Tudo ao mesmo tempo
e se desenha alta velocidade e turbilhão
Ideias liquidificadas, centrifugadas, mosáico

Em outros é serindade, bonança,
céu de estrelas apreciado da rede que balança na varanda em noite de verão
Riacho tranquilo que desliza desviando de pedrinhas lapidadas pelo tempo

As vezes, mesmo irritada, é fera que não assusta
que não interpreta o papel
que não incorpora o mal em um coração que não permite tal sentimento dentro de si

De vez em quando se revela tempestade ameaçadora
de nuvens negras e ventos de açoite e
se assim não for, de outro modo não será

Ri, chora, entende, compreende, não entende
diz, silencia, acalanta, critica, elogia, se compadece
miscigena ideias e sensações entre o nascer e o por do sol
e quando o astro novamente brilha
se recicla, revive, vive,
Faz viver

Tradução de você

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Que presente você quer do seu amor?

Tem gente que pensa que presente é só de desembrulhar

É bom olhar de fora essa euforia, correria e desespero na busca de última hora pelo presente do dia dos namorados. O mais impressionante é que a data – assim como todas as outras forjadas pelo comércio para alavancar vendas – é anunciada desde trinta segundos após o término do dia das mães; as propagandas voltadas aos pombinhos começam a ser veiculadas assim que você entrega o presente da madre.


De qualquer forma, quem é que não gosta de ganhar presentes, seja lá que dia for? Pena que a conversa aqui esbarra na famigerada e ostensiva forma de incutir na cabeça dos menos avisados, que o presente é uma obrigação ética, moral e terminantemente obrigatória, tudo isso traduzido em objeto, em material; senão não vale. Conceitos como respeito, carinho, amizade, compreensão, parceria e, claro, amor, são usados nas propagandas apenas como pano de fundo para nos convencer a colocar a mão no bolso e consumir e consumir, desmedidamente.

A impressão que tenho é que se, eventualmente, não presenteamos com um objeto qualquer, todo o empenho, dedicação, atenção, amor e carinho demonstrados ao longo do tempo, de nada valeu. E o pior é que tem gente que pensa realmente assim. Entendo que o presente em forma de objeto é a representação materializada daquilo que sentimos por outra pessoa, no caso a amada, e não simplesmente um protocolo de atendimento a uma determinada data chancelada pelo capitalismo selvagem.

Neste dia dos namorados, seria legal se as pessoas dessem presentes embrulhados que causam surpresa ao serem abertos, mas que, antes de tudo, simbolizassem amor, carinho, compreensão, parceria, etc., etc., etc. Que fossem troféus de honra ao mérito.

Pense nisso

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Uma inspiração


Tem dias que acordo Caetano
Em outros Vinícius ou Carlinhos Brown
Há dias em que acordo Erasmo
Em outros, precedidos por noites agitadas, acordo Rita Lee
Já acordei Tim Maia, Toquinho e, redundantemente, “Seu Jorge“ ou Benjor
Em dias chuvosos, por mais que me esforce, só acordo Paulo Diniz
Porém, nos de sol sou Samuel Rosa
Posso acordar Marcelo Nova, Marisa Monte, Taiguara, Ana Carolina
Há dias em que sou apenas um pobre amador, quando acordo Tom Jobim
E se a vida me surpreende,
Quando a ligação dura três horas
Acordo Chico César
Lenine, Elis
Sandra de Sá
Se ela me oferece mais uma dose
Acordo Frejat
Por que a gente é assim?
Hoje acordei você

sexta-feira, 2 de março de 2012

Fechou antes da hora. Literalmente.

Recebi um convite de uma grande amiga, para uma cerveja depois do expediente. Como se tratava de um dia em que os compromissos mirraram, aceitei de pronto e marcamos o local onde nos encontraríamos. Só aí foi que decidimos aonde as loiras nos contemplariam.

Ela sugeriu um bar que havia sido inaugurado há poucos dias e ainda tinha o agradável aditivo de pertencer a uma ex-aluna dos tempos em que trabalhávamos em uma mesma escola.

Sim, ali seria, sem dúvidas, um local perfeito pra colocar a conversa em dia, além - é claro - de prestigiarmos o novo empreendimento, como forma de incentivar a proprietária em sua nova empreitada.

Puxamos as cadeiras de umas das mesas, dessas que ficam na calçada, pois a noite era agradável. Era umas nove da noite.

À primeira vista ela, a anfitriã, nos apresentou um largo sorriso de fatia de melancia madura, o que demonstrou sua satisfação em nos receber depois de longa data.

Sem mostrar o cardápio, sugeriu a cerveja que patrocinava o bar, com sua logomarca impressa nos tampos das mesas e encostos das cadeiras. Péssima sugestão. Não era a marca preferida por nenhum dos dois, mas já que a camaradagem imperava como pretexto para a conversa, aceitamos.

Bebemos a primeira num piscar de olhos e, antes que os copos esvaziassem, pedimos a segunda. A surpresa foi quando nossa velha amiga trouxe a outra garrafa, acompanhada de um alerta: _Esta é a última. Disse em tom formal.

Olhei pra minha amiga com uma interrogação verdana 72, caixa alta e negrito.
Ela me devolveu um olhar de espanto.

_ Ué, por que a última? Questionei.
_ É que já estamos fechendo, ela justificou.

Eu pensei, pensei... pensei de novo, no silêncio que se estabeleceu, e não me contive: _ Moça. Onde é que está escrito o horário de funcionamento deste bar? Você, por acaso disse que só poderia nos servir duas cervejas, no momento em que nós chegamos? Não, né?

_ Olha, quem não quer aguentar gente desocupada, não abre bar. Abre igreja. Ensinei.

Pagamos a conta e fomos embora.

A propósito... o bar fechou definitivamente depois de alguns dias.

Faliu.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Amigo é pra essas coisas

Hoje eu dirigia para o trabalho pensando na vida, nos problemas cotidianos e ouvindo notícias no rádio.
Vinha em um turbilhão de ideias, de como encaminharia as coisas do dia, dessas que, não fosse a habilidade e familiaridade com os assuntos, qualquer um certamente perderia o bom humor.

Eu sou um premiado com o trabalho. Hoje posso dizer que tenho prazer em fazer o que faço; apesar das responsabilidades e da seriedade do serviço, faço com certa facilidade e, por que não dizer, com prazer.

Acredite se quiser, durante minhas últimas férias eu senti saudade do pessoal do serviço e olha que se tem uma coisa que eu não fui, não sou e nunca serei é um exemplo de trabalhador. Não passo nem perto de um operário padrão, funcionário destaque do mês e, menos ainda, de um "pelego". Ah, isso não sou mesmo (me permita aqui, grafar um sorriso de redes de relacionamento... rsrsrsr).

Bom, nesse mundo agitado, corrido, onde se tem dez coisas pra fazer e tempo para apenas duas ou três, meu telefone celular tocou - e não havia hora mais apropriada, porque na grande maioria das vezes não cometo essa infração de trânsito e eu estava justamente parado em uma dessas passagens de nível onde a porteira interompe o trafego de automóveis para dar vez ao trem.

Era meu vizinho, o China, amigo de longa data, que não telefonaria para mim, se não fosse algo importanteou, no mínimo razoável, ao ponto de ter de falar na urgência de um celular.

Como eu havia saído atrasado de casa, pensei que possivelmente tivesse esquecido um portão ou uma porta aberta ou, sei lá, uma lâmpada acesa ou tivesse deixado o Bernardo ou a Kiara - meus fieis cães - pra fora. Enquanto o aparelho pedia atenção em seu frenético vibrar, pensei que lá vinha uma má notícia, fosse qual fosse, afinal de contas o mundo anda tão complicado, já dizia Renato Russo.

Atendi

Depois dos cumprimentos de praxe, o China, meu vizinho me contou uma piada.
_É só pra alegrar o seu dia, disse com voz de quem tinha entregue um presente valioso.
_Eu acabei de ouvir e lembrei de você. Achei que agora era a melhor hora para compartilhar essa alegria.

Adivinhou. Era!

Obrigado China. Amigo é (também) pra essas coisas.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Palmas para o "Rodela"

Um sábado desses, pela manhã fui à região da Rua Santa Ifigênia, no centro velho de São Paulo. A cidade estava como uma panela borbulhante, de tanta gente que ia e vinha, por conta do dia dos pais comemorado por aqueles dias. Ali era notória a lei da oferta e procura: onde há compradores, lá estão os vendedores ambulantes - no caso driblando a fiscalização que se fazia presente e inibidora dos menos ousados, porque aqui e ali, um deles desembrulhava sua mercadoria, sempre de olho no "rapa" que poderia surgir a qualquer momento.

Aliás, nesse ponto, a prefeitura de São Paulo está fazendo um relativamente bom trabalho. Quem conhece São Paulo sabe que, há não muito tempo, as calçadas e boa parte das ruas eram completamente tomadas pelos camelôs. Hoje já dá para transitar com certo conforto, mesmo na Rua 25 de Março, local de um aglomerado de gente, sem igual.

Porém o que me chamou a atenção não foram as corridas sorrateiras dos ambulantes, mas a quantidade de artistas de rua que - agora com mais espaço - podem mostrar seus dotes aos passantes. Se é proibido ou não, não sei, porque não vi um sequer fugindo dos fiscais. São estátuas vivas, palhaços, músicos - de algum país andino tocando flauta acompanhados por dançarinos de mesma etnia, que aproveitam para divulgar e vender seus CDs -, mágicos e... o Rodela. Siiiimmmm aquele cidadão que participa (ou participou - não sei porque não assisto) do programa do Ratinho, no SBT.

Confesso que fiquei surpreso ao vê-lo ali, no Largo São Bento, vestido de mulher e apresentado uma de suas equetes ao público passante. Desenvolto, engraçado - sim, engraçado -, não só pelas caretas que só ele consegue fazer, mas também pelo texto decorado ou improvisado, não dá pra decifrar. Um artista que surpreende. As pessoas paravam aos montes formando uma espécie de teatro de arena, ao seu redor, para acompanhar suas palhaçadas muito bem articuladas.



Naquele bololô de gente, eu me fiz a seguinte pergunta: como é que o tal do Ratinho ganhando o que ganha na TV, deixa um artista que lhe prestou (ou presta) serviços e certamente o ajudou a alcançar bons índices de audiência ficar nessa situação? Não que haja mal em se apresentar para pessoas em praça pública que, na maioria dos casos, jamais foram ou irão a um teatro ver um show de humor.

Se o Rodela se dispõe a mostrar sua arte a um público itinerante, em troca de moedas, dos dois um: ou seu coração é mole como gelatina que o faz doar arte a quem não tem dinheiro para pagar, ou vende arte a preços tão baixos que, até quem não pode pagar, acaba ajudando.

Se for segunda hipótese, acho que o roedor deveria ter vergonha de pregar aquela complacência com os mais necessitados. O Rodela é um deles.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

É permitido respeitar a Lei. Os clientes também.

Sou um frequentador que não pode ser rotulado como assíduo, nem esporádico do Famoso Bar do Justo - uma barzinho conhecido da Zona Norte de São Paulo, pelos seus quitutes deliciosos (e premiados em concursos de grande repercussão) e pela gente bonita que frequenta o lugar.

Na segunda-feira estive por lá. O ambiente estava sossegado, com poucas mesas ocupadas e os garçons simpáticos e atenciosos, como sempre, mesmo em se tratando de uma segundona braba.

Mas uma coisa me chamou a atenção e me deixou boquiaberto: observei que um senhor que me pareceu ser o proprietário do lugar - pois ele está em vááááárias fotos dependuradas na parede do estabelecimento, abraçado com pessoas do meio artístico - fumava um cigarro atrás do outro, em intervalos menores de 10 minutos.

Bem... o problema, a saúde e o dinheiro são dele e eu nada, absolutamente nada, tenho a ver com isso, a não ser o fato de que ele fumava "dentro do estabelecimento", com o cinzeiro no balcão e ao lado daquela plaquinha que diz: Proibido Fumar Neste Local.

Tirando a falta de educação com os clientes e o desrespeito à Lei desse cidadão, o lugar é legal e eu indico para um happy hour.

A ropósito, dá uma olhada http://www.famosobardojusto.com.brhttp://www.famosobardojusto.com.br/

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Quem não chora, não leva ferro!




















Há muitos dias tenho me virado para passar roupas com um ferro desses pequenininhos de viagem. É um tormento e uma grande perda de tempo, porque a área de abrangência do dito cujo é tão pequena, mas tão pequena, que para alisar uma simples camisa pode levar mais de meia hora. Isso pra deixar "meia-boca".

Outro agravante é a pouca quantidade de água que cabe em seu reservatório; é uma recarga a cada manga. As costas então... tem de ter fé, senão não passa.

Eu, dentro da santa paciência que Deus me deu, deixava estrategicamente uma jarra d'água, ao lado e ia dando de beber ao pequeno objeto, que mais lembra um filhote de sapo com sede.

Porém, depois de muito reclamar, minhas preces foram atendidas: ontem, cheguei no trabalho e fui informado que havia um presente para mim, sobre a mesa.

Imediatemate fui ao encontro do lindo, bonito, maravilhoso e necessário ferro de passar. O bitelo é desses que têm vapor especial e, pelo tamanho da chapa, com duas ou três passadas, lá se vai uma camisa. O presente foi de uma amiga de trabalho.

Acho que a Mari não aguantava mais eu reclamando
A alegria foi tanta, que estou pensando seriamente em oferecer serviços de passadeira (passadeiro, no caso) "leva e traz". Alguém aí se interessa?

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Sorte de quem os contratou

Estou de volta depois de alguns dias sem dar as caras por aqui. Mas não pense que foi a falta de assunto que me tirou temporariamente desse espaço. Muito pelo contrário, foi o excesso de atividades que não me permitiu abastecer o que posso chamar de oficina de ideias.

Tantas coisas aconteceram, a maioria digna de nota, mas uma delas se destacou no universo de contecimentos no cotidiano: a saída de dois grandes personagens de meu ambiente de trabalho. Há pessoas que passam pelas nossa vidas e, por mais que sejam importantes, não conseguem, sequer ser lembradas quando consultamos nosso HD em busca de velhas lembranças. Outras imprimem sua presença de forma tão contundente, que fica impossível não lembrarmos delas, diante do mais simples comentário do dia-a-dia.

Foi dessa forma que duas figuras interessantes deixaram meu ambiente de trabalho, depois de longa data: o webmaster Danilo Yoshida e o grande jornalista Marcelo Daniel foram doar talento a outras empresas e, claro, receber uns cruzeiros a mais por isso.

Yoshida é o típico jovem da geração digital, até por isso emprestou seus conhecimentos na área de informática, durante muito tempo a um boletim sobre o assunto, quando eu apresentava o jornal da Rádio Estação de Franco da Rocha, município da grande São Paulo. Ele é do tipo que tem como passatempo ficar em frente ao computador desenvolvendo algum projeto que, nós leigos, não faríamos nem em hora de serviço, mas pra ele é diversão. Sabe tudo do assunto.

Não que eu tenha sentido muita falta dele no departamento, porque quando estava concentrado, era quase impossível notar sua presença. O cara era abduzido mesmo pelo trabalho, mas naquela mesa do boteco, após a jornada, ela faz uma falta danada. 

Da mesmo forma, observo a saída do Marcelo Daniel. Ele é o tipo de profissional completo: inteligente, antenado com tudo que acontece mundo afora e, mesmo com pouca idade, conhecedor de flashbacks inimagináveis a um ser tão prematuro; além disso, a segurança com que trasmite seus ensinamentos deixa claro que a concorrência não o abala. Seus boletins diários na mesma rádio eram gostosos bate-papos, que faziam eu e - tenho certeza - os ouvintes aumentarem o volume do rádio depois da vinheta de abertura. Tudo isso, diuturnamente acompanhado de um indescritível bom humor.  Marcelo é o tipo de profissional que qualquer empresa com o mínimo de bom senso contrata, sem fazer objeções.

Fica aqui a homenagem aos amigos, profissionais e, por que não dizer, irmãos de fé, Danilo Yoshida, o Japa do Paraguay e Marcelo Daniel, o locutor das multidões.

Sorte, saúde e sucesso em seus novos trabalhos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O trem nosso de cada dia

Hoje vi no G1 http://bit.ly/cdMJ8h, que os trens da CPTM, em Sâo Paulo, mais precisamente a linha “Esmeralda, nº9 (os trechos recebem nomes de pedras preciosas ), que liga Osasco ao Grajaú, apresentava problemas com as composições. Segundo a reportagem, os trens chegavam a parar entre uma estação e outra, apesar de a Companhia não admitir falhas.


Confesso que devo ter usado pouco esse ramal ferroviário e, todas as vezes, percebi que há uma intervalo muito grande entre os trens, talvez pela quantidade relativamente baixa de usuários, em comparação com as outras linhas.


Quando via a reportagem, automaticamente me lembrei da linha Rubi, que liga as estações de Luz e Francisco Morato e recebe uma verdadeira avalanche de usuários diariamente, porque transporta os trabalhadores das cidades-dormitório da região oeste.


O que mais me deixa indignado é que, literalmente, todos os trens reduzem a velocidade quando se aproximam de qualquer um dos dois terminais. É uma coisa de dar nos nervos o anda-para e os pequenos solavancos, nos dão a impressão de que o condutor não sabe se acelera ou freia.


Até entendo que, para mudar de trilho, o trem tenha de passar em baixa velocidade, mas não compreendo porque os senhores engenheiros da empresa não criam uma logística de chegada e saída dos trens, sem a necessidade de testar a paciência do usuário.


No entanto tenho de admititir que o atendimento tem melhorado consideravelmente. Há um serviço que recebe denúncias via torpedo SMS http://bit.ly/8e8ZDs. Funciona assim: quando o usuário vê alguma coisa errada dentro do trem, ele pode mandar uma mensagem de texto para a companhia, que destaca seguranças para averiguar. Tudo isso de forma anônima e muito discreta, sem comprometer o autor da denùncia. Qualquer anormalidade que possa atrapalhar a viagem, como usuários de drogas, vendedores ambulantes, brigas ou pessoas suspeitas são averiguados na próxima estação, tão logo a empresa receba o torpedo-denúncia. O número é 7150-4949.


Outra novidade que deve ser reconhecida como um avanço para a população é apresença de um segurança por vagão nos trens novos, aliás, isso deveria ser estendido a todos os trens. Além de garantir uma viagem mais tranquila aos passageiros, ainda gera emprego e renda.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Assados "ao ponto"

Hoje eu saí de casa bem agasalhado. Acordei cedo, por volta das 7h30 (isso pra mim é madrugada) em busca de mais um dia.


Logo ao abrir a porta da garagem percebi que minha espinha dorsal não apresentava os famosos arrepios delatores de um dia frio.
Bom... pra essa história não ficar com cara de "meu querido diário", devo dizer que meu termômetro natural, mais uma vez, não se enganou.


São Paulo teve hoje 28,4ºC de temperatura máxima, portanto, o dia mais quente deste inverno, segundo medição do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) http://www.inmet.gov.br/.


O próprio Instituto alerta que o normal seria algo em torno de 22,1ºC e que a temperatura está muito acima disso para essa época do ano. No último dia 25 de junho também fez calor, mas o forninho ficou regulado em 27,7ºC.


Desnecessário dizer que o aquecimento global é quem está causando essa bandalheira no clima do planeta, mas penso que é errado dizer que a culpa é dele. Na verdade nós é que somos os verdadeiros culpados da sauna aumentar cada vez mais seu poder de destruição. É uma boa parte dos seres humanos que não regula seus automóveis, para emitirem menos gases poluentes, não se preocupa em usar e descartar na natureza as sacolinhas plásticas de supermercado, não reduz o tempo do banho, não separa o lixo reciclável, não, não, não.


Junte-se a esse descontrole climático, todos os outros problemas sociais ao redor do globo, tão irreversíveis quanto a onda de calor que derrete as geleiras, sobe o nível do mar e cozinha a gente em fogo, cada vez mais alto. Guerras, fome, doenças, líderes de nações que não se entendem e falsos profetas - que prometem o reino dos cés, como um político corrupto em franca campanha eleitoral - contribuem para a instalação do caos anunciado.


Ao meu ver - e me corrijam se eu estiver errado - o mundo está mesmo precisando ser passado a limpo. Com urgência.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Quem quiser que conte outra

Sempre que chega no final do dia, dou uma olhada em meus e-mails. Hoje recebi um que se salvou em meio a um turbilhão de mensagens que recebo diariamente.

Como não repasso correntes, sejam elas quais forem, não importa o conteúdo e por ter achado esse assunto pertinente estou postando só para dar um pouco mais de ênfase ao que escrevi ontem.

Trata-se de uma piada que, se fosse contada fora de época, não teria tanta graça, mas o período é propício para uma análise mais apurada. No final você vai ver que não tem graça nenhuma.

Vamos lá:

Dançarino de boate gay


A professora pergunta na sala de aula:
- Pedrinho qual a profissão de seu pai?
- Advogado, professora.
- E a do seu pai, Marianinha?
- Engenheiro.
- E o seu, Aninha?
- Ele é médico
- E o seu pai, Joãozinho, o que faz?
- Ele... Ele é dançarino numa boate gay!
- Como assim? (pergunta a professora, surpresa)
- Fessora, ele dança na boate vestido de mulher, com uma tanguinha minúscula de lantejoulas; os homens passam a mão nele e poem dinheiro no elástico da tanguinha e depois saem para fazer programa com ele.
A professora rapidamente dispensou toda a classe, menos Joãozinho.
Ela caminha até o garoto e novamente pergunta:
- Menino, o seu pai realmente faz isso?
- Não, fessora. Agora que a sala tá vazia, eu posso falar :
Ele é político... Mas dá uma vergonha falar isso na frente dos outros !!!

Reflita bem antes de (re)eleger essas pessoas que pouco ou nada fazem pelo coletivo. Essas figuras já conhecidas que sempre dão as caras em ano eleitoral. Não se deixe enganar por seus discursos falidos. Pense antes de votar. Valorize seu voto!!


Importante salientar que nada tenho contra dançarinos de boate gay. É um ofício muito mais digno e honesto do que esbanjar o dinheiro do povo.